domingo, 14 de junho de 2015

OITNB derrubando forninhos novamente

Em tempos de crise ideológica e de passos largos rumos ao “conservadorismo fanático” – se é que cabeaspas nessa situação – eis que o lampejo de uma sério preocupada em desconstruir estigmas volta mais forte do que nunca.

Pra quem vê Orange is the new Black como um mero retrato de uma prisão feminina, onde o centro da atenção é apenas as relações intimas das detentas, eu digo: veja o primeiro capítulo da terceira temporada e só depois disso veja a primeiras temporadas.

Hoje tive a impressão de que o roteiro cansou de ser sutil em sua proposta e trazendo uma complexidade histórica e emocional, foi capaz de desmontar aqueles mais sensíveis às questões em voga.

Primeiramente, o recurso dos flashbacks já usados desde as primeiras temporadas continuam mostrando a humanidade negada àqueles que se encontram no sistema prisional, trazendo as diferentes origens dessas mulheres juntamente com o passado aqueles que detem mais poder naquele nicho, a exemplo da cena retratando o Sr. Headeyem sua infância conturbada com sua mãe. Acredito que foi uma tentativa de apontar o quanto é infundada a dicotomia funcionários X detentas, uma vez que as vicissitudes da vida pelas quais cada um passou os torna vuneráveis de maneiras diferentes (seja através de carências emocionais ou envolvimento com o mundo dos delitos).

Outro tópico que me fez apostar no aprofundamento crítico da série foi o diálogo da Dogget e Big Boo, retratando com tanta delicadeza e companheirismo dois primas sobre o aborto, que ao meu ver, mostra tão bem a hipocrisia e a negligência da sociedade frente a realidade do trinômio mulher – gestação – pobreza.

Desde as duas primeiras temporadas, pode-se perceber toda a contradição e complexidade que gira em torno da personagem Dogget, que sai do polo “mulher que interrompeu várias gestações” para o outro extremo da situação, onde após uma série de acontecimentos torna-se uma defensora do fanatismo religioso, mas que volta e meia deixa transparecer seu misto de remorso e dúvidas sobre suas decisões do passado, nunca deixando tais sentimentos suplantarem sua atual intolerância a qualquer pensamento divergente de sua nova realidade.

Na cena das pequenas cruzes destinadas a seus “bebês que não tiveram a oportunidade de serem batizados”, surge Big Boo, fazendo a função teatral do crown, falando sobre dados históricos sobre a queda da violência uma década após a legalização do aborto em alguns estados americanos. Uma mistura de teoria malthusianarepaginada, onde vê-se uma pitada da teoria da chamada ‘limpeza social”, que, ainda da fala de Big Boo, deixaram de nascer e não fizeram parte das tristes estatísticas envolvendo os resultados de uma família socialmente desgastada, condições adversas de sobrevivência e falta da perspectiva que estas crianças encarariam desde o berço.

Tal cena trás uma carga que, pessoalmente, joga ao vento toda a sordidez de um sistema que usa em seu proveito toda a dor cotidiana de milhares de mulheres condenas por abortar. Mulheres que, sem alternativas e amarradas às sua condição de pobreza ou qualquer outro motivo não conseguem aceitar seus filhos e se recusam a engolir a imposição de uma suposta maternidade inata. Assim, lhes são negados tanto a condição da escolha sob seus corpos quanto a revolução social que tanto necessitam, que traria ares igualitários economicamente, politicamente e enquanto possibilidade de emancipação ontológica.

Por fim, a festa do Dia das Mães, que inicia-se com um dia de comemoração para todas aquelas que veem nesse dia a oportunidade de ver seus filhos há tanto distantes que é brutalmente finalizada por um toque de recolher que expõe às crianças uma amostra da desumanização que essas mulheres suportam atrás das grades. Sob falas de fundo de crianças pedindo pras suas mães se levantarem do chão, gritos abafados de temor e olhares atônitos de duvida. A realidade mostra sua face mais cruel até para os pequenos que não entendem muito bem a razão daquilo tudo.

E como se não fosse o bastante todos os estágios do descaso, mães também são informadas de seu banimento da vida de suas crianças pequenas sob a justificativa de não deixa-las acostumadas com a vida prisional. O marido, muitas vezes cúmplice nos crimes da esposa se retira da vida da mesma, saindo ileso e passível de encontrar outras companheiras no mundo lá fora.

Ser mulher é um desafio a todas, todos os dias e de qualquer classe social, mas para essas, até sua condição de mulher  é negada após serem colocadas atrás das grades.

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